O céu na terra que nunca chega: a raiz filosófica da dissonância progressista

Ela acontece em milhões de lares. O filho que cresceu na fé, que rezou antes de aprender a ler, que sentou-se à mesa todas as noites, um dia anuncia, com a segurança de quem descobriu uma verdade superior, que "evoluiu". Que a religião é alienação. Que a família é uma instituição opressora. Que o mundo precisa ser "desconstruído". Os pais ficam sem chão. Não reconhecem o próprio filho.
Hoje vemos essa transformação refletida de forma acentuada nas universidades públicas brasileiras. Todo pai e mãe sabe que, ao ingressar na universidade, seu filho estará sujeito à influência de ideologias progressistas capitaneadas por grupos políticos ligados à esquerda mais radical.
Mas este artigo não existe para discutir as universidades, nem para apontar culpados dentro delas. Existe para ajudar quem sofre a entender o que se passa. O que se vê todos os dias é um fato: pessoas capturadas por essas ideologias vivem em permanente atrito com a realidade. O que ainda não foi explicado é o porquê. Que ideia de homem produz esse atrito, e por que ela resiste tanto à evidência?
Para responder, preciso fazer duas coisas. Primeiro, levar a sério a filosofia que sustenta o progressismo, porque ninguém é capturado por uma ideia que não tenha alguma coerência interna; gente inteligente não adere a bobagens, adere a meias-verdades. Depois, contrapô-la com uma tradição mais antiga e, ouso dizer, mais realista: a clássica, a patrística e a de Tomás de Aquino.
A promessa: um mundo consertável
Toda ideologia progressista, em suas muitas variações, repousa sobre um núcleo filosófico que pode ser resumido numa frase: o mal está fora do homem, e pode ser eliminado consertando-se as estruturas.
Essa intuição tem uma genealogia clara.
Começa com Rousseau, que inverteu a antropologia clássica. Para ele, o homem nasce bom e é corrompido pela sociedade, pelas instituições, pela propriedade, pela civilização. Se o homem é naturalmente bom, então todo defeito que vemos nele não é dele: é do sistema. A consequência é enorme: a culpa migra do indivíduo para a estrutura. O pecador deixa de existir; só existe a vítima.
O Iluminismo acrescentou a essa base a ideia de perfectibilidade: o homem é infinitamente aperfeiçoável pela razão. Não há limite natural, não há "natureza" que resista; basta aplicar a razão certa e o progresso é inevitável. A história passa a ser lida como uma marcha rumo à perfeição.
Hegel deu a essa marcha uma metafísica: a história tem um sentido, uma direção necessária. O indivíduo é quase um instrumento de um processo que o ultrapassa; o que ele pensa, sente e quer é, no fundo, o Espírito pensando através dele.
Marx materializou tudo isso: a consciência é determinada pelas condições materiais. A "infraestrutura" econômica molda a "superestrutura" das ideias, a religião, a moral, a filosofia. Nessa leitura, toda essa cultura é ideologia: a falsa consciência da classe dominante, disfarçada de verdade universal. Troque a estrutura e você troca o homem. O resto é engano.
E chegamos, por fim, ao pós-modernismo e à teoria crítica contemporânea, que radicalizam o gesto até o fim: a própria realidade é denunciada como construção social, produto de relações de poder. Não há "verdade" a descobrir, apenas narrativas a desconstruir. A biologia é "construída", a família é "construída", até o sexo é "construído".
Repare no fio condutor: em todas essas camadas, o problema está sempre lá fora, nas estruturas, no capital, no patriarcado, no colonialismo, na linguagem. O homem é vítima, nunca causa. É uma filosofia profundamente consoladora em um sentido: promete que, se consertarmos o mundo, consertaremos o homem. E é exatamente essa promessa que a realidade se recusa a cumprir.
O contraponto clássico: o homem tem uma natureza
A tradição que começa em Aristóteles parte do pressuposto oposto. O homem tem uma natureza (a physis), e essa natureza tem um fim, um telos. Não somos uma folha em branco a ser moldada pelas estruturas; somos um ser com uma forma própria, e essa forma aponta para um fim que devemos realizar, não inventar.
Para Aristóteles, a virtude não é dada nem imposta de fora: é adquirida pelo hábito. Você se torna justo praticando atos justos, corajoso praticando atos corajosos, temperante praticando a temperança. Isso significa que a excelência é uma tarefa pessoal, um trabalho de cada um sobre si mesmo, não uma reforma do ambiente.
A polis (a cidade) existe, sim, mas não para "consertar" o homem. Ela existe para criar as condições em que o homem possa se aperfeiçoar por seus próprios atos. A cidade não substitui a virtude; ela a possibilita. A responsabilidade permanece no indivíduo.
É uma diferença de diagnóstico que muda tudo: se o mal está no caráter e nas escolhas, então não há reforma estrutural que o elimine; há apenas a lenta, paciente formação da virtude. A utopia promete eliminar o mal de fora para dentro; a tradição clássica sabe que ele só se enfrenta de dentro para fora.
A patrística: o mal está dentro do coração
A tradição cristã, e em especial Santo Agostinho, aprofunda esse realismo de um modo que a filosofia grega não alcançava.
Agostinho parte de uma observação perturbadora: mesmo quando as estruturas são boas, o homem ainda falha. Por quê? Porque o problema não está nas instituições, está na vontade desordenada. Ele chama isso de libido dominandi, o desejo de dominar, e o vê como a raiz de toda a miséria humana.
Sua grande obra, A Cidade de Deus, é, entre outras coisas, uma resposta a quem acreditava que consertar a cidade consertaria o homem. Agostinho viu Roma cair e ouviu os pagãos dizerem que foi o cristianismo que arruinou o império. Sua resposta foi: Roma caiu por causa de Roma, por causa do orgulho e da concupiscência que estavam no seu coração, não por falta de boas estruturas.
Há um conceito agostiniano que ilumina tudo isso: as virtudes esplêndidas, aquelas realizações que parecem admiráveis, mas que, sem a graça, nascem do orgulho. É a intuição de que até o que parece bom pode estar enraizado num amor desordenado de si. Nem todo gesto generoso é caridade; às vezes é vaidade buscando aplauso.
Para Agostinho, as duas cidades, a de Deus e a dos homens, se misturam na história. Nenhuma utopia terrena pode ser a Cidade de Deus, porque a Cidade de Deus é uma realidade escatológica, não um projeto político. Quem promete o céu na terra está, agostinianamente, confundindo as duas cidades e condenado a transformar o paraíso prometido em inferno administrado.
Tomás de Aquino: a verdade é conformidade com a realidade
Tomás de Aquino dá a essa tradição sua formulação mais precisa e, para o nosso tema, mais decisiva.
Primeiro, a lei natural: há uma ordem objetiva inscrita na realidade, que a razão humana é capaz de conhecer. O bem não é uma invenção, é uma descoberta. A consciência não cria o bem; ela o reconhece. As leis humanas são justas na medida em que participam dessa ordem, e injustas, por mais bem-intencionadas que sejam, quando a contrariam.
Segundo, e aqui está o coração do assunto, Tomás define a verdade como adaequatio intellectus ad rem: a conformidade do intelecto com a coisa. O intelecto é feito para se ajustar à realidade, não para ajustar a realidade a si. Quando pensamos algo verdadeiro, nosso pensamento se dobra àquilo que é. A nossa mente não fabrica o real; ela o recebe, como um olho recebe a luz.
Essa é a definição mais antiga e mais simples de verdade, e é exatamente o que a mentalidade progressista, em sua forma radical, inverte. Se a realidade é uma "construção social", então o intelecto não precisa se conformar a ela: ela é que deve se conformar ao projeto. A verdade deixa de ser descoberta e passa a ser produzida. E quem produz a verdade? Os donos do processo. Por isso o controle da linguagem se torna tão importante: quem manda nas palavras, manda no que pode ser pensado.
A dissonância: quando a ideia se recusa a ceder à realidade
Agora juntamos as peças. E aqui está, a meu ver, a explicação filosófica da dissonância que observamos.
A ideologia progressista promete um mundo perfeito, e não um mundo perfeito no além, mas aqui, alcançável pela reforma das estruturas. Essa é a promessa. Mas a realidade insiste em não colaborar: o homem continua falho, egoísta, limitado, mesmo com as estruturas "corretas". As utopias, quando tentadas de verdade, produziram não o paraíso, mas o gulag; não a emancipação, mas campos de reeducação.
Surge então o conflito. A promessa diz: o mal é externo e eliminável. A realidade responde: o mal é interno e recorrente. Uma das duas tem que ceder.
E é aqui que a dissonância cognitiva se instala. Em vez de revisar a ideologia, o que seria doloroso, pois ela dá sentido à vida e à identidade, o crente revisa a percepção da realidade. Se o mal não pode estar no homem (a ideologia o proíbe), então ele deve estar em algum lugar ainda mais profundo, mais oculto: numa estrutura invisível, num complô, num "sistema" que se recusa a morrer. Cada fracasso da utopia não é lido como refutação da tese, mas como prova de que o inimigo é ainda mais poderoso do que se pensava.
O resultado é uma dificuldade crônica de lidar com o real. Fatos que contradizem a ideologia são reinterpretados, negados ou atacados. Dados empíricos viram "narrativa". A realidade deixa de ser um dado a ser aceito e passa a ser um obstáculo a ser superado. O intelecto, que para Tomás deveria se conformar à coisa, agora exige que a coisa se conforme a ele. E como a coisa não se conforma, a frustração cresce, e com ela a raiva, e com a raiva a necessidade de silenciar quem insiste em apontar o óbvio.
Em termos agostinianos: a utopia é a tentativa de construir a Cidade de Deus com as ferramentas da Cidade dos homens. E como o mal está no coração, o projeto está fadado a encontrar no próprio construtor a resistência que ele insiste em localizar lá fora. A frustração não vem de fora; vem de um diagnóstico errado sobre a natureza humana.
Fontes usadas neste artigo
A Ética a Nicômaco, de Aristóteles, de onde vem a ideia de que a virtude se forma pelo hábito.
A Cidade de Deus, de Santo Agostinho, de onde vem a distinção entre as duas cidades e a noção do mal no coração humano.
A Suma Teológica, de Tomás de Aquino, de onde vem a definição de verdade como conformidade do intelecto com a realidade e a ideia de lei natural.
O Discurso sobre a origem da desigualdade, de Rousseau, que inaugura a ideia de que o homem nasce bom e é corrompido pela sociedade.
O Manifesto Comunista e a obra de Karl Marx, de onde vem a leitura da consciência como produto das condições materiais.
Este é o diagnóstico, o terreno das ideias. Mas quem convive com um jovem capturado por essa promessa não precisa só de teoria: precisa entender o que se passa na cabeça dele, na prática. Como essa dissonância se manifesta na mente de quem abandona a fé e a família? Por que ele parece tão convicto e, ao mesmo tempo, tão distante da realidade? E, mais importante: o que os pais podem fazer, ou deixar de fazer, para não perdê-lo de vez? Essas perguntas são o tema da segunda parte desta série: "O filho que se foi: o que se passa na mente de quem abandona os valores da família".
Por Dalmo, editor do Red Umbrella



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