O filho que se foi: o que se passa na mente de quem abandona os valores da família
Atualizado: há 3 horas

A cadeira à mesa continua ocupada, mas o filho que senta nela já não é o mesmo. Não houve grito, não houve briga, não houve conselho que falhasse. Houve uma convicção que chegou pronta de fora e se instalou nele como se fosse dele: a religião virou alienação, a família virou opressão, o mundo virou um projeto a ser desconstruído. Os pais servem o jantar e percebem que estão servindo a um estranho, um estranho que fala com as palavras de uma ideologia que ninguém em casa ensinou.
Este artigo é a segunda parte de uma série. Na primeira parte, O céu na terra que nunca chega, vimos a filosofia por trás do progressismo: a promessa de que o mal está fora do homem e pode ser eliminado consertando as estruturas, e como essa promessa colide com a concepção clássica, patrística e tomista de natureza humana. Aqui, vamos descer um nível: não o das ideias, mas o da mente. Como essa promessa se instala na cabeça de um jovem? E o que os pais podem fazer, ou deixar de fazer, para não perdê-lo de vez?
O que os pesquisadores vêm observando
Antes de tudo, uma constatação que deve confortar os pais: isso não é um caso isolado, nem fruto de falha pessoal de criação. É um fenômeno que psicólogos e psiquiatras vêm documentando há anos, e os dados apontam numa direção surpreendente.
Não se trata de provar tese nenhuma; apenas de indicar tendências. Mas elas são consistentes:
Pesquisas americanas com dezenas de milhares de adolescentes, acompanhados entre 2005 e 2018, encontraram um aumento de sintomas depressivos mais acentuado justamente entre os jovens que se identificam como liberais (no sentido americano, ou seja, progressistas), especialmente meninas de famílias com menor escolaridade.
Estudos europeus com grandes painéis de adultos mostraram que pessoas vulneráveis à depressão tendem a não se identificar com a direita, como se houvesse um viés do sofrimento psíquico para o lado oposto do espectro.
O dado mais impressionante vem de um grupo de noruegueses acompanhado por trinta anos, da adolescência à meia-idade: jovens com níveis elevados de depressão e ansiedade tornaram-se, décadas depois, adultos significativamente mais à esquerda, enquanto problemas de comportamento externalizante apontavam na direção contrária.
Repare no que isso sugere: não é que a ideologia adoeça. É que o sofrimento psíquico pode vir antes da ideologia, e empurrar a pessoa para ela. O jovem não se torna progressista porque está mal; ele muitas vezes está mal antes, e a ideologia oferece um diagnóstico (o mal está lá fora), uma promessa (a perfeição é possível) e um pertencimento (você não está sozinho). É um remédio para uma dor que já existia.
Isso muda tudo para os pais: o filho não está "possuído" por uma ideia. Ele está tentando curar uma dor com o remédio errado
Duas mentes progressistas: uma não é o que os pais pensam
O psiquiatra americano Lyle Rossiter, em A mente esquerdista, dedicou a vida a descrever o mecanismo, e sua distinção mais útil para os pais é esta: existem duas mentes progressistas, e a primeira delas não é o que os pais imaginam.
A primeira é a benigna. É o filho bem-intencionado: sensível à injustiça, generoso, sonhador de um mundo melhor. Ele não é mau. Ele foi convencido de que o mal está no sistema, no capital, no patriarcado; de que consertando as estruturas se conserta o homem; de que a perfeição é alcançável aqui na terra. Adota as premissas erradas por idealismo, sem perceber aonde elas levam. A maioria dos jovens capturados está aqui. O erro dele não é o coração, é o diagnóstico.
A segunda é a radical. É o militante: ativo, agressivo, disposto a silenciar quem resiste. E aqui está a verdade que dói: a radical é a benigna que endureceu. Frustrada por prometer o céu e encontrar a terra, ela não revisa a promessa, revisa a realidade. Todo obstáculo vira inimigo. Todo questionamento vira ofensa.
Identificar em qual das duas o filho está faz toda a diferença. Com a benigna, o diálogo é possível; com a radical, quase sempre é preciso esperar o choque com a realidade, e estar lá quando ele vier.
Os movimentos internos que explicam a mudança
O que sustenta essa passagem é um conjunto de movimentos psicológicos que qualquer um de nós reconheceria em si mesmo, se fosse honesto:
A projeção para fora: a culpa nunca é do homem, é da estrutura. Isso livra da culpa, mas desarma: se o mal está lá fora, não há trabalho interior a fazer. O jovem nunca precisa se examinar; só precisa acusar.
A dependência transferida: o Estado, a causa e o movimento assumem o papel que antes era da família e de Deus: prover segurança e sentido. É uma troca de pai, não uma conquista de liberdade. Por isso a contradição aparente entre "rebelde" e "docilmente conformado ao grupo".
O conformismo do grupo: a consciência individual é substituída pelo "o que todos pensam". A aprovação do novo círculo vale mais que a verdade. É mais fácil mudar de opinião do que mudar de turma.
A grandiosidade redentora: salvar o mundo é uma missão que dá sentido à vida. Abandonar os valores antigos deixa de ser traição e vira "sacrifício heroico". Ninguém abandona a família por maldade; abandona por uma narrativa em que é o herói.
Junte tudo isso à filosofia da primeira parte: a promessa diz que o mal é externo e eliminável; a realidade responde que o mal é interno e recorrente. Quando as duas colidem, o crente não consegue abandonar a promessa, ela virou sua identidade. Então ele abandona a realidade. O que os pais veem como "irracionalidade" não é falta de inteligência: é a mente defendendo a própria promessa. Agostinho diria: o coração está inquieto, e ele apontou a inquietação para fora. Tomás diria: ele trocou a conformidade com o real pela exigência de que o real se conforme a ele.
Por que ele troca uma comunidade por outra
Rossiter usa uma palavra que deve confortar, e desafiar, os pais: sedução. O movimento não conquista pela força; conquista pelo afeto. Oferece ao jovem exatamente o que uma alma jovem mais deseja: pertencimento, identidade, missão, e a sensação de estar do lado certo da história.
Um jovem que se sente incompreendido em casa encontra no novo grupo uma escuta incondicional. Um jovem que busca sentido encontra no ativismo um propósito diário. Um jovem que sonha com um mundo melhor encontra ali um exército pronto para recebê-lo. Ele não abandonou a família porque deixou de precisar de amor; ele encontrou o que procurava em outro lugar.
Este é o momento mais difícil deste artigo, porque aponta para os pais sem acusá-los: a disputa pelo filho não é apenas de ideias, é de afeto. E a ideologia vence, muitas vezes, não porque tem razão, mas porque preencheu um vazio que já existia.
Não se trata de culpar os pais. Trata-se de entender que o abandono raramente começa quando o filho anuncia a nova fé; começa antes: na distância silenciosa, na fé vivida sem entusiasmo, no pertencimento que a família deixou de oferecer ou que o jovem deixou de sentir.
O que a família pode fazer, ou deixar de fazer
A tradição que estudamos oferece o antídoto mais antigo, e ele tem três partes:
O exemplo vale mais que o argumento. A virtude, dizia Aristóteles, não se transmite por decreto; forma-se pelo hábito, pelo convívio, pelo exemplo. A fé também. Uma casa onde a fé é vivida com alegria, não imposta com rigidez, cria um pertencimento que nenhuma ideologia copia. Um jovem que experimentou, na própria pele, uma comunidade que o ama de verdade reconhece, mais cedo ou mais tarde, as imitações.
Não romper o vínculo. A tentação dos pais é cortar: discutir, ameaçar, expulsar, "dar um basta". É exatamente o que a ideologia espera, ela quer que o jovem fique só com o novo grupo. O amor que permanece, que acolhe sem concordar, que mantém a porta e a mesa abertas, é a única coisa que a ideologia não sabe combater.
Esperar o choque com a realidade. Toda utopia, um dia, encontra a realidade, e a realidade sempre vence. O jovem vai descobrir, mais cedo ou mais tarde, que o grupo que o acolheu também tem contradições, que o movimento também cobra, que a perfeição prometida não chegou. Quando esse momento vier, ele precisará de um lugar para onde voltar sem vergonha. A família pode ser esse lugar.
E, para além de tudo isso, há o que a técnica não alcança: a oração. Não como fórmula, mas como confiança, porque, como dizia Agostinho em A Cidade de Deus e nas suas reflexões fundamentais, o coração é inquieto enquanto não descansa no que é verdadeiro. A utopia não descansa. A família pode ser o lugar do descanso.
Conclusão
O filho que se foi não está perdido; está enganado. E há uma diferença enorme entre as duas coisas. O engano se desfaz quando a realidade aparece; e a realidade sempre aparece. A pergunta não é se ele vai descobrir que a promessa era grande demais; é onde ele vai estar quando descobrir, e se terá para onde voltar.
Quem quiser alcançar um filho capturado pela utopia não o enfrenta; compreende-o. Quem compreende, ama. E o amor, dizem os clássicos, a Escritura e a experiência de milhões de mães e pais, é a única coisa que a ideologia não sabe imitar.
Fontes usadas neste artigo
O estudo de Catherine Gimbrone e colegas sobre adolescentes americanos e sintomas depressivos (revista SSM Mental Health, 2021).
O artigo de Luca Bernardi sobre depressão e posicionamento político (revista Party Politics, 2020).
A coorte norueguesa de trinta anos conduzida por Sam Fluit e colegas (revista Political Psychology, 2026).
O livro A mente esquerdista, do psiquiatra Lyle H. Rossiter (Vide Editorial, 2016), de onde vem a distinção entre a mente benigna e a mente radical.
O estudo clássico de Jaime Napier e John Jost sobre conservadores e felicidade (revista Psychological Science, 2008).
Posfácio: uma nota sobre os termos
Agora um esclarecimento importante. Ao longo do artigo, usei a palavra progressismo e não esquerda, porque, no plano conceitual, os dois termos não se confundem: a esquerda tradicional é, sobretudo, uma categoria econômica e política (luta de classes, papel do Estado, redistribuição), enquanto o progressismo é uma categoria cultural e moral — transformação de costumes, identidade, crítica à família e à Igreja.
Mas no Brasil essa distinção, real no papel, confunde mais do que ajuda na prática. Os dois movimentos andam juntos por aqui: compartilham militantes, pautas e, no essencial, a mesma promessa de fundo: a de que o mal está fora do homem e de que, consertando as estruturas, conserta-se o homem. O foco deste artigo é exatamente essa promessa comum, que aparece tanto na linguagem econômica da esquerda tradicional quanto na linguagem cultural do progressismo identitário. Por isso, no contexto brasileiro, o texto fala de um conjunto só: a esquerda e o progressismo que caminham juntos, bebendo da mesma fonte utópica.
Série em duas partes: O céu na terra que nunca chega, parte 1. O filho que se foi, parte 2. Um convite a compreender antes de julgar.
Por Dalmo, editor do Red Umbrella




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