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A Arte de Lutar sem Lutar - Fabio Gomes

Quando a Sabedoria Milenar Encontra a Elite Militar


Nos acostumamos a enxergar o Kung Fu através das lentes de Hollywood, principalmente depois de Bruce Lee. Aquela luta exótica e acrobática dos filmes acabou se tornando nossa principal referência quando o assunto é arte marcial chinesa. No entanto, essa visão é limitada e, em muitos casos, fantasiosa.


Nesta obra, Fábio Gomes, consultor em segurança e mestre sênior em Ving Tsun, resgata o sentido etimológico de Kung Fu — "habilidade adquirida através de trabalho árduo" — e o apresenta não como uma ferramenta de combate e destruição, mas como um veículo de desenvolvimento humano. Seja em qualquer campo de atividade, ter um bom Kung Fu é atingir a excelência pela dedicação contínua.


O Ving Tsun, por sua vez, é um sistema de Kung Fu que nasceu da necessidade de neutralizar o conflito com inteligência, economia e precisão. É uma arte que cultiva postura, discernimento e capacidade de antecipação e adaptação — qualidades fundamentais para quem precisa tomar decisões sob tensão, mas com sobriedade.


E é justamente na intersecção improvável entre a sofisticação desta arte milenar chinesa e a brutalidade do combate real que nasceu o livro "A Arte de Lutar sem Lutar". De um lado, operadores das Forças Especiais do Exército Brasileiro, treinados para a sobrevivência em ambientes hostis; do outro, o Ving Tsun, concebido para neutralizar a força bruta através da inteligência.


Longe de ser um manual técnico voltado para luta e violência, a obra oferece um tratado sobre inteligência estratégica aplicada à sobrevivência. Fábio relata como a tradição chinesa foi introduzida na elite militar brasileira, não para ensinar a "brigar", mas para forjar uma mentalidade capaz de operar com clareza em meio ao caos absoluto.


O ponto alto da obra reside na distinção crucial entre técnica e inteligência, luta e arte marcial. Enquanto um conjunto fixo de técnicas de combate pode tornar-se previsível ou ineficaz em determinadas situações, o Ving Tsun opera como uma Inteligência Estratégica — um sistema dinâmico de tomada de decisão.


Esta inteligência baseia-se em princípios que desafiam a lógica convencional do confronto:


  • A Vitória Ofertada: Diferente da visão ocidental de "conquistar" a vitória à força, o estrategista de Ving Tsun posiciona-se de tal forma que o adversário, ao errar ou precipitar-se, lhe oferta a vitória. É a arte de ocupar os espaços vazios deixados pelo oponente.


  • Economia de Movimento: A eficiência máxima não vem do excesso, mas da precisão cirúrgica. O sistema ensina a resolver problemas complexos com o mínimo dispêndio de energia vital.


  • O Paradoxo da Suavidade: "Lutar sem lutar" não significa passividade, mas uma ação de tamanha antecipação e estrutura que o conflito é desarmado antes de escalar.


O Ving Tsun não foi pensado para vencer lutas, mas para educar o praticante a tomar consciência de que não precisa delas. No entanto, a teoria precisa resistir à realidade. O sistema se manifesta pela experiência marcial — situações de combate simbólico com progressiva imprevisibilidade. Isso significa que seus praticantes não treinam a repetição mecânica de respostas, mas a capacidade de lidar com o inédito por meio de princípios incorporados.


Em última análise, "A Arte de Lutar sem Lutar" revela que o verdadeiro campo de batalha é interno. Os inimigos mais formidáveis — o medo, o ego, a ansiedade — estão dentro de nós. Esta leitura é um convite para deixarmos de ser apenas pessoas que reagem às circunstâncias, para nos tornarmos estrategistas de nossas próprias vidas.


Como bem sintetiza a obra: a verdadeira marcialidade consiste em "agir com precisão e cessar com humanidade — ser instrumento da vida, não da destruição sem sentido".


"Nem sempre para vencer é preciso lutar. A vitória não é conquistada, mas sim ofertada pelo adversário. Assim, ao invés de lutar com o outro para saber se irá vencer, tenha antes a certeza da vitória." - Leo Imamura, Grão-Mestre de Ving Tsun, discípulo direto do Patriarca Moy Yat


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