Petricor: A Essência da Transformação e o Aroma da Produção
- Diana Exenberger Finkler
- 17 de set.
- 6 min de leitura

Poucas sensações são tão universalmente agradáveis quanto aquele aroma terroso e revigorante que a chuva liberta ao tocar o solo seco. É uma experiência que transcende a mera percepção olfativa, evocando memórias e despertando uma profunda conexão com a natureza. Oriundo de substâncias como a geosmina (composto orgânico produzido por bactérias no solo e óleos vegetais acumulados nas rochas e no solo), esse aroma é conhecido como “petricor”.
O termo, para quem não sabe, deriva do grego "petra" (pedra) e "ichor" (fluido etéreo, o sangue dos deuses), refletindo sua origem mística e terrena. É, portanto, uma metáfora poderosa para a emoção de ver a ciência e, em especial, a química ganharem vida.
Mas e se houvesse um equivalente a essa sensação no mundo da criação humana, um "petricor" da inovação? Para muitos, e em especial para aqueles que se dedicam à química e à engenharia, essa sensação surge ao testemunhar a materialização de uma ideia, a transmutação da teoria em produto tangível, o pulso vibrante de uma fábrica. É a alegria de ver a inventividade humana desdobrar-se em complexos processos que moldam o nosso mundo. Não se trata apenas de entender a teoria em um laboratório, mas de sentir a vibração, o cheiro e o calor da produção em larga escala, de perceber a grandiosidade de algo que um dia foi apenas um conceito. Essa é a sensação que move e inspira muitos profissionais, um "petricor" que toca a alma de quem transforma o intangível em realidade.
Neste artigo, imergiremos em duas histórias que ilustram perfeitamente essa sensação, narradas a partir de visitas a grandes empresas químicas: uma siderúrgica e uma notável indústria de celulose, vivenciadas por um time de professores e pesquisadores.
A Robustez da Siderurgia: Um Petricor de Força e Resiliência
A visita a uma siderúrgica foi um verdadeiro divisor de águas no entendimento do universo industrial. Há uma distinção crucial entre uma linha de montagem de componentes leves, onde robôs executam tarefas pesadas e sistemas visuais de prova de erro (poka-yokes) garantem a precisão, e a operação de um cadinho que atinge mais de 1000 graus Celsius, consumindo energia equivalente à de dezenas de residências. A robustez dos equipamentos, operando ininterruptamente 24 horas por dia, 7 dias por semana, em meio a um barulho ensurdecedor e um calor escaldante, culmina em uma produção que é digna de aplausos e reconhecimento.
As pessoas que trabalham e gerenciam as atividades em uma siderúrgica são verdadeiros heróis – os heróis invisíveis, cuja dedicação e maestria nos remetem à temática industrial explorada em romances como "A Revolta de Atlas", de Ayn Rand. Testemunhar o aço incandescente, inicialmente um líquido vermelho vibrante, sendo transformado em lingotes – uma verdadeira obra de arte que passa peça a peça por esteiras capazes de suportar toneladas por minuto – é uma experiência inesquecível. Esse processo emana um cheiro muito particular, um equivalente industrial ao petricor natural, que, em vez da leveza da terra e da chuva, evoca a sensação de resistência, coragem e a forja de um futuro.
Além da sua grandiosidade, a indústria siderúrgica encerra uma beleza intrínseca em seus processos. Ela é, notavelmente, uma das precursoras da economia circular. A coleta de sobras ferrosas e sua reutilização nos cadinhos é uma prática centenária. Enquanto o mundo contemporâneo começa a voltar seus olhos para a economia circular como uma tendência emergente, a siderurgia se posiciona como uma anciã de profunda sabedoria, com muito a ensinar sobre sustentabilidade e eficiência.
A Magnificência da Celulose: Um Petricor de Escala e Sustentabilidade
Para além do aço, outra indústria que impressiona profundamente é a de celulose. Um grupo de professores e pesquisadores da FURG teve a oportunidade de vivenciar essa grandiosidade em uma visita à CMPC, em Guaíba, conforme noticiado pela própria universidade (clique aqui para acessar a notícia).
Logo na chegada, a dimensão do pátio é impactante: montanhas de madeira aguardam o processamento, enquanto empilhadeiras gigantescas movimentam os cavacos que seguirão para os digestores. O cenário, que muitas vezes é descrito e explicado em sala de aula, ganha uma nova vida e significado ao se observar a escala real das máquinas, dos tubos e das complexas conexões que transformam a madeira em celulose. É, de fato, como sentir o petricor: não basta apenas conhecer a definição, é imperativo vivenciar a experiência.
Percorrer as etapas do processo, desde o recebimento da madeira, passando pela picagem e cozimento, até a recuperação química e o branqueamento, é compreender na prática o que, nos livros, muitas vezes parece apenas teoria abstrata. A magnitude da fábrica não reside apenas em sua impressionante capacidade produtiva, mas também na maneira meticulosa como cada detalhe é monitorado e controlado. Desde os sensores que acompanham o recebimento da matéria-prima até o rigoroso controle ambiental, tudo revela uma engenharia pensada para manter a estabilidade operacional e a segurança.
No setor de cloro-soda, a experiência é igualmente fascinante. Ali, a precisão da eletroquímica é notável: membranas e eletrolisadores em operação contínua quebram a simplicidade do sal, gerando soda cáustica, cloro e hidrogênio. Esses são insumos centrais tanto para o próprio processo industrial de branqueamento do papel quanto para o mercado em geral. Estar diante dos eletrolisadores, dos tanques e das linhas de condução faz perceber a grandeza e a complexidade de algo que, tantas vezes, foi descrito apenas por fórmulas ou protótipos acadêmicos.
Outro aspecto que merece destaque é o cuidado com a comunidade vizinha. Por estar localizada tão próxima de áreas urbanas, a fábrica adota medidas específicas para reduzir impactos, como o uso de substâncias que neutralizam odores característicos do processo, além de controles rigorosos de ruído e canais de comunicação abertos para lidar com eventuais reclamações. Essa atenção demonstra como uma indústria de grande porte deve conviver de forma equilibrada e responsável com a população local, priorizando o bem-estar coletivo.
A experiência de estar na CMPC foi, portanto, enriquecedora em muitos níveis. Em sala de aula, é fundamental que o professor explique e que o aluno aprenda repetidamente as etapas da produção de celulose. Contudo, nada se compara a ver todo o processo acontecendo diante dos olhos. A escala monumental, o calor intenso, os sons metálicos característicos e o cheiro peculiar da polpação – tudo em conjunto permite uma compreensão profunda da grandiosidade do sistema. Mais do que aprender, foi viver um processo que, até então, existia apenas nas páginas dos livros e nos slides das apresentações.
O Impacto Econômico e o Futuro
As visitas às siderúrgicas e indústrias de celulose não são apenas relatos de processos industriais; são testemunhos da capacidade humana de inovar, de superar desafios complexos e de construir um futuro. É a alquimia da ciência aplicada, onde elementos brutos são transformados em bens essenciais que sustentam a vida moderna. A química, em conjunto com outras tecnologias como a mecânica, eletrônica, elétrica, computação e telecomunicações, são responsáveis diretas pela geração de riquezas, pela inovação constante e pela melhoria contínua da qualidade de vida. A jornada do laboratório à fábrica, da ideia ao produto final, exemplifica o espírito que impulsiona o progresso.
Nesse contexto, a indústria e o empreendedorismo emergem como os verdadeiros catalisadores do desenvolvimento de uma nação. Eles não apenas geram empregos e riqueza, mas também estimulam a pesquisa, a educação e a infraestrutura, criando um ecossistema de progresso contínuo. Cada fábrica que opera, cada empresa que surge de uma ideia inovadora, contribui para a robustez econômica e a autonomia tecnológica de um país. O "petricor" da produção, com seus aromas distintos e sensações únicas, é mais do que um cheiro; é o perfume do avanço, o hálito da prosperidade e a promessa de um futuro moldado pela criatividade e pelo trabalho árduo. É a materialização de uma visão coletiva que nos leva adiante.
Esperamos que, ao ter contato com os produtos que fazem parte do seu dia a dia, você possa despertar a mesma sensação de "petricor", pensando na origem industrial e no intrincado caminho que cada item percorreu para chegar até você. É um convite à reflexão sobre o trabalho, a inovação e a dedicação que permeiam cada etapa da produção.
Um beijo cheio de moléculas valiosas,
Diana Finkler
Leticia Zanchet
Juntos, os setores de siderurgia e celulose despontam como pilares fundamentais em termos de empregabilidade e avanço tecnológico. O setor de celulose no Brasil ocupa uma posição de destaque global, com números expressivos em produção, exportação, emprego e receita. Em 2022, o Brasil produziu cerca de 25 milhões de toneladas de celulose, consolidando-se como o maior exportador mundial dessa matéria-prima (Fonte: Florestas do Brasil). Esse setor gerou mais de 600 mil empregos diretos e aproximadamente 2,6 milhões de empregos diretos e indiretos em todo o país, além de uma receita bruta de cerca de R$ 260 bilhões (Fonte: Florestas do Brasil), representando em torno de 2,7% do PIB nacional em 2023 (Fonte: CPG Click Petróleo e Gás).
Da mesma forma, o setor siderúrgico no Brasil emprega diretamente mais de 100 mil pessoas. Em 2024, a produção mundial de aço bruto alcançou cerca de 1,88 bilhão de toneladas, com a China mantendo a liderança ao responder por mais da metade desse volume (aproximadamente 1,0 bilhão de toneladas), seguida por Índia, Japão e Estados Unidos. Nesse cenário global, o Brasil produziu 33,7 milhões de toneladas, o que nos coloca na 9ª posição entre os maiores produtores globais de aço (Dados da World Steel Association).

