O Fim do Esquecimento
- Dalmo Moreira Junior

- há 3 dias
- 3 min de leitura

Você já parou para pensar que somos a primeira geração na história da humanidade que não tem o direito de esquecer? Cada post, cada comentário, cada foto despretensiosa e até mesmo cada erro juvenil ficam permanentemente arquivados em servidores globais, criando um espelho infinito do nosso passado. Vivemos na era da memória digital, uma espécie de caixa-preta que registra tudo. Mas essa capacidade total de lembrar é uma bênção que nos eleva ou uma maldição que nos aprisiona?
Por um lado, essa memória eterna se tornou uma forma sutil de tirania. Em seu romance distópico "1984", George Orwell imaginou um regime que controlava o presente apagando o passado. Hoje, vivemos o paradoxo inverso: somos controlados por um passado que não pode ser apagado. Nossa sociedade se transformou em um tribunal permanente onde o passado nunca morre, e a cultura do cancelamento é apenas seu sintoma mais visível. Perdemos a capacidade de evoluir para além de quem fomos, pois o arquivo digital está sempre lá para nos lembrar dos nossos deslizes.
Friedrich Nietzsche já alertava que, para viver plenamente, o ser humano precisa da capacidade de esquecer. Sem ela, ficamos presos a um fardo, como o personagem "Funes, o Memorioso" de Jorge Luis Borges, que, amaldiçoado por uma memória infalível, não conseguia pensar, pois pensar é generalizar, é esquecer as diferenças. Ao nos negar o direito ao esquecimento, a sociedade digital mina a virtude da redenção, substituindo a graça pela condenação perpétua.
Contudo, essa mesma memória implacável tem um lado luminoso e poderoso. Ela se tornou a nossa ferramenta mais eficaz na luta pela verdade, pela liberdade e pela justiça. Em um mundo saturado por narrativas que tentam reescrever a realidade, um arquivo permanente e verificável é o nosso farol mais potente. A memória digital dá voz às vítimas, permitindo que movimentos como a Primavera Árabe em 2010 e os protestos em Hong Kong entre 2019 e 2020 ganhassem força global ao preservar testemunhos que, em outra era, seriam silenciados ou desacreditados. Ela cobra responsabilidade de poderosos, pois um político ou uma corporação não podem mais negar facilmente o que disseram ou fizeram no passado.
Mas ainda mais importante, a memória digital é um bastião contra a censura e a tirania. Vimos isso claramente nas recentes revoltas no Irã. Diante dos protestos massivos, a primeira reação do regime não foi dialogar, mas tentar apagar a verdade e esconder a realidade, bloqueando o acesso à internet. Essa tentativa desesperada de criar um blecaute de informação é, na verdade, a maior confissão do poder que a memória digital possui. Mesmo com os bloqueios, vídeos de repressão, testemunhos e vozes de resistência vazaram para o mundo, criando um arquivo global da verdade que a tirania não consegue mais controlar ou silenciar. O que antes era um ato de opressão local, agora se torna um registro indelével na consciência mundial.
No fim das contas, a memória digital é como uma faca de dois gumes: ela pode ser a cela de uma prisão que nos impede de seguir em frente ou a chave que nos liberta da opressão e da mentira. A tecnologia em si é neutra. O desafio, portanto, não está na ferramenta, mas em nossas mãos. A grande questão que nossa geração precisa responder é: como usaremos esse poder sem precedentes? Escolheremos construir uma sociedade mais justa, transparente e livre, ou um coliseu digital onde ninguém jamais será perdoado?


Comentários