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A Grande Feminização: o critério que substituiu a regra

há 2 dias
16 min de leitura

Atualizado: há 1 hora

Em outubro de 2025, a editora e ensaísta norte-americana Helen Andrews publicou na revista Compact um ensaio que se tornou um dos mais discutidos do ano. Ela o intitulou The Great Feminization (a Grande Feminização), e a tese é mais radical do que o nome sugere: tudo o que se convencionou chamar de wokeness seria efeito de uma mudança demográfica, não sua causa. Instituições que eram masculinas em sua composição passaram a operar por padrões de comportamento femininos. Não se trata do número de mulheres em cargos de influência, portanto, mas do que acontece ao modo de resolver conflitos quando elas chegam em quantidade suficiente.


Onde antes se decidia por regra, distância e hierarquia, passou-se a decidir por empatia, consenso e proteção contra o desconforto. A mudança não é de pessoal: é de estilo de julgamento. E o que Andrews descreve como transformação de estilo, este ensaio descreve como algo mais objetivo: uma troca no critério de decisão.


Todo grupo humano precisa de uma régua para decidir três coisas: quem entra, quem sobe e quem sai. É dela que dependem salário, promoção, aprovação, contrato, sentença e vaga. Essa régua é o critério de decisão. Quando a instituição premia desempenho, o critério diz que sobe quem entrega; quando premia tempo de casa, sobe quem ficou; quando premia sensibilidade, sobe quem melhor se apresenta como ferido pelo mundo. Nenhuma dessas réguas é neutra: cada uma recompensa um tipo de pessoa e um tipo de conduta, e é por isso que trocar a régua muda tudo o resto.


A troca produz efeitos em cadeia. Quem é premiado aprende o que vale a pena fazer. Esse aprendizado se repete até virar hábito. Hábitos, multiplicados por milhares de pessoas dentro da mesma instituição, produzem resultados que podem ser contados: produtividade, aprovações, patentes, nascimentos, sentenças. É essa corrente, e não o humor de uma época, que interessa aqui.


Os dois critérios

Para entender a troca, é preciso nomear o critério que foi abandonado. Ele não era o mérito no sentido estreito de desempenho, embora o incluísse. Era a impessoalidade da regra: uma decisão se justifica pela sua aplicação a todos, e a exceção precisa provar que é necessária. O professor reprova pelo mesmo padrão que aprova; o gestor mede pelo mesmo número que promove; o juiz aplica a mesma lei ao poderoso e ao miserável. O que unifica os três é a recusa de olhar para o rosto de quem está sendo julgado. No Direito, essa recusa tem nome próprio: Estado de Direito. A lei vale justamente porque é fria, porque não se comove.


O critério que o substituiu é o inverso e se apresenta com a força de uma virtude: a consideração do caso particular. Cada pessoa é um caso único, cada sofrimento é irrepetível, e aplicar a mesma régua a todos passa a ser o próprio crime. A regra deixa de ser o ponto de partida e passa a ser a suspeita: quem a invoca é acusado de não ter olhado para quem estava à frente.


Todo critério de decisão carrega uma ideia de ser humano, mesmo quando ninguém a declara. Quem julga pela impessoalidade supõe que a pessoa escolhe e pode responder pelo que escolheu, daí a exigência de prestar contas. Quem julga pela sensibilidade supõe outra coisa: que a pessoa é aquilo que sofreu, e que quem sofreu não se julga, se acolhe. Se o sofrimento passa a ser o dado principal de alguém, a pergunta sobre o que essa pessoa fez perde o sentido. Sem essa pergunta não há culpa, mérito, responsabilidade nem perdão, porque só se perdoa a quem se poderia condenar. O que resta é administrar estados de espírito, tarefa de administrador e não de juiz.


Por que o pior critério venceu

Ninguém decretou essa troca, e é justamente por isso que ela é difícil de combater: não houve um autor a quem se opor, houve convergência. Três forças empurraram no mesmo sentido ao mesmo tempo, e cada uma delas, isolada, seria insuficiente.


A primeira foi um problema real. O mérito medido sem contexto prejudicava quem carregava encargos que não escolheu, e a maternidade era o caso mais visível, porque recaía sobre um sexo só e interrompia carreiras de forma previsível. Quem defende o novo critério não age de má-fé; a injustiça de origem era palpável.


A segunda foi o custo. Avaliar por resultado exige medir, documentar e sustentar a recusa sob contestação. Avaliar por sensibilidade exige apenas registrar o desconforto relatado. Toda instituição com dinheiro curto adota o critério mais barato.


A terceira foi a tecnologia. O número não circula; o relato circula. Num ambiente que premia engajamento, a narrativa vence o dado pela facilidade de se espalhar.


Nenhuma dessas forças precisou de um defensor consciente. E é por isso que a soma delas é tão difícil de desfazer: seria preciso, ao mesmo tempo, corrigir a falha do mérito sem voltar à injustiça, aceitar o custo de medir e abrir mão do engajamento que a narrativa rende.


Os quatro pilares corroídos

Na universidade, o critério era a falseabilidade empírica e o confronto aberto de ideias: uma tese resistia ou caía conforme os dados que conseguisse alinhavar. O novo critério subordina a hipótese ao impacto emocional percebido pela audiência. Se refutar um dado gera aplauso acadêmico, mas tocar em certos temas ameaça o emprego e a reputação, o pesquisador prudente abandona as perguntas incômodas. O resultado é a censura que ele aplica a si mesmo antes de qualquer proibição; a consequência é a sociedade que formula políticas públicas no escuro, sem os dados que decidiu não produzir.


O caso que inaugurou essa era ocorreu em 14 de janeiro de 2005, numa conferência do NBER (National Bureau of Economic Research), com o economista Larry Summers, então presidente da Universidade de Harvard. Summers formulou três hipóteses para a menor presença feminina no topo das ciências exatas: discriminação e socialização, diferenças de variabilidade inata nas aptidões cognitivas e escolhas relativas ao tempo dedicado à família. A reação não foi empírica, mas um levante moral que culminou na sua renúncia no ano seguinte.


Vale registrar, por honestidade de raciocínio, que Summers depois escreveu uma carta à faculdade reconhecendo que suas observações sobre variabilidade haviam ido além do que a pesquisa estabelecia. Mas esse recuo confirma o ponto em vez de derrubá-lo: a tese não depende de Summers ter razão. Depende do fato de que uma hipótese testável foi tratada como crime moral. Quando levantar uma hipótese custa a carreira, o pesquisador racional escolhe o silêncio e abandona temas decisivos como biologia do comportamento e origens da desigualdade de renda.


No Brasil, o mesmo mecanismo deslocou o foco do ensino de base para a maquiagem do vestibular. O PISA 2022 registrou 379 pontos do Brasil em matemática, contra 472 da média da OCDE. Setenta e três por cento dos estudantes brasileiros ficaram abaixo do nível 2, o mínimo que a OCDE considera necessário para o exercício pleno da cidadania, e apenas 1% alcançou o nível 5 ou superior. Diante disso, o debate universitário concentrou sua energia na triagem identitária.


As cotas raciais e sociais podem ser plenamente defensáveis como medida de urgência política, mas o que elas não são, e nunca serão, é política de educação. Elas não alteram nenhuma das condições que produziram os 379 pontos. Um sistema que intervém apenas no resultado do vestibular e ignora a destruição cognitiva do ensino fundamental decide de quem é a culpa, não como corrigir a falha, e a queda silenciosa do rigor do currículo passa a inflar aprovações formais de alunos que o Estado abandonou na infância.


Na empresa, o critério tradicional era a margem operacional, o cumprimento de prazos e a eficiência técnica das entregas. O novo critério priorizou a blindagem contra o desconforto e a gestão da suscetibilidade interna. A raiz dessa virada está numa conta de incentivos perversa: o gestor que aponta um erro grave, demite quem não rende ou cobra prazos duros assume um custo certo, imediato e só dele, arriscando denúncias em ouvidorias e vetos no RH. Quem contemporiza, dilui metas e aceita entregas defeituosas joga o prejuízo para um custo incerto, futuro e dividido com todos, a ser pago por acionistas invisíveis daqui a cinco anos.


Quando o custo da firmeza cai na hora sobre um indivíduo e o benefício do rigor se dispersa no tempo, calar vira a única jogada que compensa. Não vejo nisso fraqueza moral dos gestores; vejo uma conta que cobra caro pela coragem e dá desconto à complacência. O comportamento padrão passa a ser o afago cosmético em relatórios e, na ponta, a perda de produtividade, o caixa corroído e o fim da inovação industrial.


No Direito, a premissa histórica era a regra geral, abstrata e impessoal, baseada na previsão estrita dos contratos e na igualdade formal perante a lei. O critério novo transferiu a decisão para a vulnerabilidade declarada das partes e a narrativa de opressão no caso concreto. Se o desfecho de um processo depende de quem convence o juiz de que é a vítima, a variável decisiva deixa de ser a prova e passa a ser a retórica da vitimização.


Contratos, crédito e contratações trabalhistas são todos precificados pela previsibilidade. Quando ela cai, o prêmio de risco sobe imediatamente, e quem paga esse prêmio mais alto é exatamente quem tem menos patrimônio e menos garantias. A insegurança jurídica é regressiva por natureza: destrói o emprego formal, encarece o crédito e empurra para a informalidade justamente a ponta mais fraca que a decisão pretendia proteger.


Na família, o critério antigo exigia papéis complementares fundados no sacrifício mútuo, na renúncia individual e no cumprimento de deveres que não variavam com o humor da semana. O critério contemporâneo redefiniu o vínculo como uma troca contínua de validação emocional e autoexpressão sem limites. Quando o sacrifício masculino de prover e proteger passa a ser lido como resquício de dominação autoritária, enquanto as exigências do outro lado ganham status de direitos absolutos, a conta da reciprocidade não fecha.


Em qualquer parceria de longo prazo, quando um dos lados percebe que arca com custos certos sem garantia de reconhecimento, a escolha racional é abandonar o jogo. A demografia registra essa retirada sem meias-palavras: segundo o Censo Demográfico 2022 do IBGE, a taxa de fecundidade total do Brasil caiu para 1,55 filho por mulher, a menor já registrada pelo instituto. Em 1960, o mesmo índice era de 6,28. O país afundou com folga abaixo do nível de reposição de 2,1 filhos, enquanto casamentos formais minguam e divórcios disparam. Homens se recolhem a um consumo solitário; mulheres enfrentam a sobrecarga de criar filhos sozinhas.


A base biológica: a empatia fora de escala

A facilidade com que as instituições engoliram essa transformação tem uma raiz evolutiva clara. Em pequenos bandos de caçadores-coletores, a empatia foi selecionada para operar em grupos reduzidos, onde todos tinham rosto, histórico de interações, cobrança mútua e horizonte de convivência prolongado. Nessas condições de proximidade, socorrer quem tropeça fortalece a tribo, porque a fraude é facilmente identificada e o aproveitador é punido pela comunidade.


Quando esse mecanismo é transplantado para instituições anônimas de grande escala, o ajuste herdado da evolução quebra por completo. A repartição pública, sem rosto, não tem como distinguir o sofrimento autêntico da alegação estratégica de dor. Quem alega dor privada não pode ser auditado de fora; quem ousa duvidar da alegação paga um preço moral e de reputação instantâneo. Um sistema desenhado assim seleciona ativamente o pior comportamento disponível, abrindo a porta para a chantagem e a simulação de fragilidade.


O psicólogo evolucionista Gad Saad chamou essa patologia de empatia suicida: a compaixão que, sem cálculo de risco e sem exigência de reciprocidade, desarma as defesas do grupo para não parecer insensível no curto prazo. A organização abre mão de filtros de competência, perdoa faltas graves e suspende regras gerais para receber aplausos imediatos da própria bolha, ignorando que está demolindo as colunas que sustentam o teto de todos.


Vale fazer uma distinção que entendo ser indispensável: a diferença entre a compaixão com prazo e a compaixão sem prazo. A compaixão com prazo aceita o desgaste de dizer "não" e aguenta a tensão do momento porque mira a autonomia do indivíduo lá na frente; ela tolera o atrito presente em favor da competência futura. A compaixão sem prazo busca apenas estancar o desconforto na hora. Alivia a culpa de quem concede, mas mantém quem recebe eternamente frágil e dependente.


A tradição clássica já havia nomeado essa distinção sem precisar de biologia evolutiva. Para Tomás de Aquino, a virtude não se define pelo sentimento que a acompanha, mas pela ordenação da ação ao fim verdadeiro do outro, e uma disposição que produz dano ao próximo não é caridade em grau maior, é caridade corrompida na sua própria forma. Aristóteles diria o mesmo por outro caminho: toda virtude é um meio-termo regulado pela prudência, e o excesso de uma disposição sem o freio da prudência deixa de ser virtude e passa a ser vício, ainda que conservando o nome bonito. Josef Pieper levou o argumento ao ponto mais desconfortável: a virtude que não é exercida com a dureza da realidade não é magnanimidade, é falsificação; e a falsificação da virtude é mais perigosa que o vício declarado, porque o vício declarado ainda admite correção, enquanto a virtude falsificada se protege do próprio exame.


A falsificação da virtude é mais perigosa que o vício declarado, porque o vício declarado ainda admite correção, enquanto a virtude falsificada se protege do próprio exame.

Essa distorção orienta a teoria do altruísmo patológico, formulada por Barbara Oakley. O conceito descreve ações movidas por intenções nobres de acolhimento que, no mundo real, aprofundam a decadência e a incompetência de quem é socorrido. Vemos essa patologia no chefe que nunca reprova um subordinado relapso e sobrecarrega os melhores da equipe, no professor que aprova analfabetos funcionais para evitar atritos na sala e no Estado que distribui transferências sem prazo de saída nem cobrança de contrapartida.


O ensaísta Roni Fouks converge para o mesmo diagnóstico ao demonstrar que a compaixão desconectada das restrições materiais agrava as mazelas que jura combater. O drama do Ocidente não é o excesso de caridade pessoal, mas a entronização do sentimento como régua de gestão técnica e orçamentária. A metáfora médica me parece a mais exata: a instituição que subordina a realidade prática aos humores do momento age como o cirurgião que, com pena de cortar a carne do doente, deixa o tumor crescer.


A anatomia do colaborador

As transformações na tomada de decisão não flutuam no ar; dependem de pessoas que assinam memorandos, aprovam orçamentos e operam as comissões nas organizações. No topo e no meio dessa pirâmide, encontramos duas figuras: o convertido sincero e o cooptado.


O convertido abraçou a doutrina identitária de boa-fé. Ele acredita piamente que suspender o rigor do mérito é o caminho moral para redimir o mundo de suas injustiças, e por essa fé ele compra brigas abertas. Já o cooptado opera por cálculo frio de sobrevivência e conveniência burocrática. Ele sabe que o novo vocabulário paralisa a entrega e gera desperdício; não crê em uma única linha dos chavões de empatia que repete nas reuniões. Ele apenas calculou o preço de nadar contra a maré e concluiu que discordar é caro demais.


O cooptado não é apenas um sujeito que se adaptou no susto: é o produto acabado de uma seleção implacável. Ao longo dos anos, o sistema premiou os flexíveis e puniu os rigorosos em cada rodada de promoção. Uma década depois, a instituição não tem apenas os dissidentes que demitiu pelo caminho; tem, sobretudo, aqueles que nunca contratou, porque foram barrados nos filtros iniciais de conformidade.


O comportamento desse colaborador adaptado se revela em quatro cenas do cotidiano. Na empresa, elogia em público equipes que descumpriram todas as metas, omitindo alertas graves para não soar insensível. Na universidade, empurra orientandos talentosos para temas inofensivos e aprova artigos medíocres em bancas para evitar indisposições no departamento. No governo, repassa verbas para programas inócuos e chama a rendição de pragmatismo político. Em casa, cala diante de desmandos pedagógicos, preferindo a paz artificial do quarto ao esforço de exercer a autoridade paterna.


Essa cisão permanente entre o que pensa e o que diz cobra um preço alto da mente: a paranoia relacional. O gestor já não avalia a consistência dos dados nem as exigências concretas da operação; gasta a energia antecipando se alguma palavra pode ser lida como agressão psicológica por algum comitê interno de conduta.


Essa fratura explode em três sintomas. O primeiro é o ressentimento contido: o sujeito engole desaforos no escritório o dia todo para manter o salário e descarrega a pressão em casa, tratando a família com amargura. O segundo é a perda gradual de identidade: para suportar a farsa por anos sem enlouquecer, atrofia os próprios padrões e passa a desdenhar a excelência que antes admirava. O terceiro é a impotência operativa: quem treinou a vida inteira para evitar atritos perde o músculo moral para tomar decisões impopulares quando as crises reais chegam.


Esse ciclo se fecha no masculino suicida. A empatia patológica não se expande sem o braço executivo de homens dispostos a demitir pares brilhantes e financiar o patrulhamento interno para comprar imunidade pessoal passageira. Não consigo enxergar nenhum heroísmo trágico nessa postura: foi uma barganha pragmática, em que a autoridade e o dever da verdade foram trocados pelo alívio momentâneo de não se indispor. O sistema cobrou o preço exato que estava estipulado em contrato.


A captura: quem se beneficia

Para decifrar essa máquina, é preciso afastar teorias de conspiração. A prevalência da sensibilidade sobre o resultado técnico é um caso evidente de captura institucional, ou seja, a situação em que a instituição passa a servir aos interesses de um grupo interno, e não à sua própria finalidade. A captura aqui é movida por pura conveniência política. Diretores e governantes descobriram que o discurso da vulnerabilidade é a ferramenta de poder mais barata, maleável e inatacável disponível.


O mecanismo é direto: a sensibilidade vira a moeda mais valiosa da instituição porque dispensa provas; dispensa provas porque a dor é um fenômeno estritamente privado; como a dor é privada, quem a alega detém o monopólio absoluto sobre a própria queixa. O poder de decidir migra então de quem entrega resultados verificáveis para quem monopoliza a alegação de ofensa.


Há aqui um problema filosófico que a linguagem da gestão esconde. Um critério de justiça, para ser critério, precisa valer para todos, inclusive para quem não o invoca em causa própria. A regra do mérito passa nesse teste, com todas as suas imperfeições: se o resultado é verificável, qualquer um pode exigir a mesma verificação para si. A sensibilidade não passa. Se o desfecho de uma decisão depende de uma dor que só o próprio portador pode atestar, então o critério não é universal: é uma prerrogativa. E prerrogativa não é justiça, é privilégio com boa consciência. Alasdair MacIntyre mostrou que uma sociedade que perde a noção de critério compartilhado não se torna mais tolerante, apenas mais litigiosa, porque cada parte passa a fundar sua pretensão num bem incomparável com o do adversário. É o que se vê quando a decisão migra da prova para a narrativa: não há mais como decidir, só como acomodar.


A compaixão burocrática funciona como ferramenta de controle graças a três propriedades. A primeira é ser inatacável: quem usa esse vocabulário se apresenta como defensor desinteressado dos fracos, transformando qualquer contestador técnico em um monstro moral. A segunda é a elasticidade seletiva: a exigência de empatia é acionada contra adversários e desativada para aliados conforme a conveniência do comando. A terceira é a capacidade de se autolegitimar: o burocrata não precisa demonstrar produtividade nem retorno do investimento, pois sua função se justifica pela simples declaração de zelo pelo bem-estar e pela harmonia interna.


A sustentação dessa engrenagem repousa sobre a aliança tácita de três operadores. O primeiro é o crente sincero, que fornece o calor ético e a legitimidade moral diante da opinião pública. O segundo é o aparato burocrático de diversidade, escuta e recursos humanos, cujo orçamento e relevância dependem da manutenção do problema; se o conflito cessasse, essas estruturas perderiam a razão de existir. O terceiro é o gestor incompetente, que encontrou na liturgia identitária o escudo definitivo contra a cobrança de números; quando as metas desabam, exibe virtude comportamental para fugir da demissão.


O que está em jogo

O estrago real dessa dinâmica não se resume ao constrangimento em reuniões executivas ou ao desconforto de polêmicas digitais. O custo maior está na destruição sistemática da capacidade que as instituições tinham de detectar erros cedo.


A sobrevivência de qualquer sistema complexo depende da velocidade com que o primeiro sinal de desvio, defeito ou ineficiência alcança quem decide para que a rota seja corrigida. Quando apontar uma falha é interpretado como falta de empatia e apresentar um número desfavorável é recebido como agressão, quem enxerga a trinca no alicerce cala para proteger a própria cabeça. Opera aqui uma perversa assimetria temporal: o custo da franqueza é imediato e pessoal, enquanto o custo do silêncio é diluído e futuro. Toda estrutura que cobra caro pela verdade hoje e premia a omissão garante que o erro cresça no escuro até que o edifício desabe sobre todos.


Laboratórios científicos dependem da coragem de descartar hipóteses furadas antes de queimar fortunas em pesquisas inúteis. Obras de infraestrutura exigem que o engenheiro aponte o risco estrutural sem medo de parecer pessimista. O sistema judicial precisa da aplicação da lei e das provas sem se vergar ao apelo emocional do público. Quando o medo da ofensa interdita o alerta antecipado, a falha só é percebida quando a realidade cobra a conta na forma de desastres físicos, empresas insolventes e serviços públicos em ruínas.


O resultado é a proliferação de organizações ocas: estruturas que mantêm fachadas luxuosas e balanços vistosos, mas que perderam a lucidez de diagnosticar as próprias carências operacionais. Quando enfrentam choques de mercado ou crises geopolíticas que exigem disciplina e coragem, quebram no primeiro tranco, porque passaram anos fingindo que a realidade factual não existia.


A ordem dos bens

O trajeto percorrido até aqui limitou-se a descrever a mecânica de um sistema: um critério de decisão foi substituído por outro, a nova régua estabeleceu incentivos imediatos, esses incentivos ditaram condutas previsíveis e a soma dessas condutas gerou consequências materiais mensuráveis. Indicadores como os 379 pontos em matemática e a taxa de 1,55 filho por mulher não representam acidentes de percurso, mas o produto direto dessa calibragem. A conclusão é estritamente descritiva: o arranjo institucional entrega com exatidão aquilo que foi desenhado para produzir.


A questão central, portanto, não é escolher entre compaixão e rigor técnico, mas delimitar até onde cada uma vale. A compaixão é soberana no confessionário, no consultório médico e na mesa de jantar. Ela não tem competência técnica para arbitrar orçamentos, assinar laudos periciais, fixar sentenças ou pautar linhas de pesquisa científica. O erro do nosso tempo consistiu em confundir a excelência de uma virtude privada com a universalidade de sua jurisdição funcional.


A tradição que nos formou chamou isso de ordem dos bens. Existem realidades que são meios e realidades que são fins, e a maior parte dos desastres morais da história não nasceu de gente má escolhendo o mal, mas de gente boa invertendo essa ordem, tomando um bem verdadeiro e lhe dando o lugar do bem supremo. A compaixão é um bem real; nenhuma civilização se sustentou sem ela. Mas um bem real colocado no lugar que não é o seu deixa de produzir o bem que prometia e passa a produzir o mal que ninguém previu. É o que Aristóteles chamaria de erro na causa final e o que a tradição cristã chamou de inversão da ordem da caridade: amar o conforto do próximo mais do que o seu bem é uma forma sutil de não amá-lo.


A maior parte dos desastres morais da história não nasceu de gente má escolhendo o mal, mas de gente boa invertendo essa ordem, tomando um bem verdadeiro e lhe dando o lugar do bem supremo

O juízo que este ensaio propõe não é, portanto, contra a compaixão. É contra a sua entronização, porque uma virtude entronizada não governa, apenas impede que alguém governe.


A sustentação desse modelo apoia-se em uma distribuição calculada de vantagens: há um conjunto de agentes beneficiado pelo critério em vigor que, por razões puramente econômicas, não possui incentivo algum para corrigi-lo. Enquanto o custo de apresentar a verdade empírica for imediato e individual, e o benefício do rigor permanecer difuso e futuro, a omissão continuará sendo a escolha racional dos operadores. Não se trata de fraqueza de uma geração, mas da resposta esperada a uma conta que foi montada assim.


O diagnóstico não requer indignação moral; exige apenas que se nomeie o critério que orienta as decisões. Quem prefere não nomeá-lo não está sendo gentil, está apenas postergando a conta. A realidade cobra pelo valor nominal.


Fontes consultadas

  • Helen Andrews, "The Great Feminization", revista Compact, 16 de outubro de 2025: a tese de que o fenômeno descrito como wokeness é efeito da feminização demográfica das instituições.

  • Censo Demográfico 2022, do IBGE: os dados de fecundidade (1,55 filho por mulher em 2022, contra 6,28 em 1960).

  • PISA 2022, do Inep e da OCDE: o desempenho em matemática (379 pontos do Brasil contra 472 da média da OCDE, com 73% abaixo do nível 2).

  • A transcrição das declarações de Larry Summers na conferência do NBER, em 14 de janeiro de 2005, publicada pelo Harvard Crimson.

  • A carta de Summers à faculdade de Harvard, de 17 de fevereiro de 2005, em que reconhece ter ido além do que a pesquisa sustentava.

  • Gad Saad, "Suicidal Empathy": o conceito de empatia suicida.

  • Barbara Oakley: o conceito de altruísmo patológico.

  • Aristóteles, "Ética a Nicômaco": a virtude como meio-termo regulado pela prudência e a noção de erro na causa final.

  • Tomás de Aquino, "Suma Teológica": a caridade definida pela ordenação ao fim verdadeiro do outro, e não pelo sentimento que a acompanha.

  • Josef Pieper, "As Virtudes Fundamentais": a falsificação da virtude e por que ela é mais perigosa que o vício declarado.

  • Alasdair MacIntyre, "Depois da Virtude": a perda do critério compartilhado de justiça e a sociedade que se torna litigiosa em vez de tolerante.



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