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A Arte para se Viver: O Espelho da Alma em Hamnet e a Redenção pela Beleza


Vivemos tempos de urgências utilitárias. Nossos dias são medidos em metas, produtividade e na incessante necessidade de "fazer". Nesse frenesi, a arte é frequentemente relegada à categoria de entretenimento, um adorno para as horas vagas (quando muito). Mas há momentos em que a vida nos confronta com o inominável — a perda, o luto, o abismo — e as planilhas e relógios perdem o sentido. É nessas horas que descobrimos a verdadeira função da literatura e do cinema: não como fuga, mas como a arte para se viver.


Essa revelação atinge o espectador com a força de um golpe físico em Hamnet, a belíssima adaptação cinematográfica de Chloé Zhao para a obra de Maggie O'Farrell. Mais do que uma biografia especulativa sobre a tragédia de William Shakespeare ao vivenciar a morte do seu filho, o filme é um tratado sensorial sobre como transformamos a dor insuportável em beleza eterna.


O Crepúsculo da Inocência: A Lente de Zhao

Ao assistir Hamnet, somos imersos em uma atmosfera onde a luz narra tanto quanto os diálogos. Fiel à sua assinatura autoral, Zhao filma sob a égide da "Hora Mágica" — aquele breve interregno entre o dia e a noite, onde a luz é dourada, difusa e, acima de tudo, passageira.


Essa escolha estética não é mero preciosismo; é linguagem. A luz crepuscular que banha o rosto do jovem Hamnet é a metáfora visual de sua própria existência: bela, vibrante, mas fadada a desaparecer na escuridão iminente da peste. A cinematografia nos força a sentir a nostalgia do presente, a saudade de um menino que ainda está vivo na tela, mas já morto na história.


Aliada a uma trilha sonora que funde o minimalismo de instrumentos de época aos sons orgânicos da natureza — o vento nas árvores de Stratford, o farfalhar das ervas de Agnes —, a obra cria um "silêncio habitado". É nesse espaço, longe do ruído do mundo, que a humanidade dos personagens respira. Shakespeare aqui não é o ídolo de bronze da literatura; é apenas um pai, falível e desesperado, tentando costurar as feridas da alma com a tinta de sua pena.


A Verdade da Fantasia: A Espada e a Masmorra

Mas por que precisamos reviver essa dor através da arte? Por que nos submeter à tragédia voluntariamente? A resposta exige que recorramos aos grandes defensores da imaginação moral.


G.K. Chesterton, com sua lucidez habitual, nos oferece a chave para entender a alquimia de Hamnet:

"Contos de fadas são mais que verdadeiros: não porque nos dizem que dragões existem, mas porque nos dizem que dragões podem ser vencidos."

Em Hamnet, o "dragão" não cospe fogo; ele é o silêncio do quarto vazio, a febre da peste, o esquecimento. A realidade crua nos diz que a morte é o fim e que o dragão venceu. Mas a arte — a peça Hamlet que nasce da tragédia — é a espada de São Jorge. O filme nos mostra que a ficção não é uma mentira para mascarar a realidade, mas a única arma capaz de enfrentá-la. Ao transformar seu filho morto em um príncipe imortal nos palcos de Londres, o pai não nega a morte; ele a derrota no campo da memória.


J.R.R. Tolkien aprofunda essa ferida necessária em seu ensaio Sobre Histórias de Fadas, ao defender o conceito de "Evasão" (Escape). Ele argumenta que confundimos a Fuga do Desertor com a Fuga do Prisioneiro:

"Por que deveria um homem ser desprezado se, encontrando-se na prisão, tenta sair e ir para casa? Ou se, quando não pode fazê-lo, pensa e fala sobre outros assuntos que não carcereiros e muros de prisão?"

A "Arte para se viver" é essa chave da cela. Hamnet nos oferece a Nobre Evasão: saímos da prisão do nosso cotidiano cinzento e indiferente para respirar o ar puro da tragédia humana e da beleza. Não fugimos da vida (deserção), mas fugimos para dentro de uma compreensão mais profunda dela (libertação).


A Resistência contra a Barbárie do Raso

Entretanto, aceitar esse convite de Tolkien e Chesterton — o convite para usar a fantasia como ferramenta de verdade — exige um esforço muscular da alma que a sociedade contemporânea parece ter perdido.


Hoje, vivemos sob o império da preguiça mental (leia nosso artigo anterior), um estado de letargia cognitiva alimentado pelo vício em dopamina barata. O espectador moderno, treinado pelo algoritmo a consumir conteúdos de 15 segundos e músicas descartáveis — desprovidas de complexidade harmônica ou lírica —, encontra-se atrofiado. A "tela" deixou de ser a janela para o mundo (a saída da prisão de Tolkien) e tornou-se um espelho de vaidades e banalidades (a decoração da cela).


Essa dieta constante de lixo cultural cria uma incapacidade crônica de compreender contextos profundos ou de sustentar um pensamento analítico. Diante de uma obra como Hamnet, que pede silêncio, paciência e entrega, a geração do "scroll infinito" sente tédio.


Mas o tédio não está na obra; está na alma de quem perdeu a capacidade de mergulhar. Rejeitar a complexidade artística em favor da superficialidade ruidosa é sintoma de uma sociedade que esqueceu como sentir, preferindo a anestesia da distração constante à dor — e à beleza — da reflexão verdadeira.


A Criação como Sobrevivência

É por isso que a arte se torna urgente; ela é o antídoto contra essa barbárie do raso. Ao chorar por Agnes e Hamnet, exercitamos a empatia que a rotina digital paralisou. A narrativa nos ensina que a criatividade é a única saída sã. O marido (Shakespeare) escreve não por vaidade, mas para organizar o caos de seus sentimentos dentro da estrutura de cinco atos. A arte dá forma ao informe, nome ao inominável.


Hamnet, sob o olhar sensível de Zhao e a profundidade de O'Farrell, é a prova definitiva de que a beleza é uma necessidade biológica do espírito. Consumimos histórias não para passar o tempo, mas para que o tempo não passe por nós em vão.


A arte não nos salva da morte física, nem nos poupa das tragédias. Mas ela nos salva de vivermos uma vida pequena, reféns da superficialidade e surdos diante do mistério da existência. E, como a história de Hamnet nos ensina, enquanto houver alguém disposto a desligar a tela, encarar a dor e transformá-la em poesia, o amor — e a memória — jamais serão silenciados.


Para quem ainda não assistiu ao filme, não deixe de fazê-lo nas telonas. São poucas as vezes que temos acesso a uma experiência cinematográfica tão intensa quanto bela.




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