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A Anatomia da Covardia: O Abuso da Lei e a Anestesia de uma Nação


O Brasil chegou a um nível de mediocridade institucional e moral em que até a palavra "covardia" perdeu o seu sentido original. Historicamente, a covardia sempre fez parte do desenvolvimento humano e, na sua origem ética, estava ligada à dificuldade de vencer o medo. Segundo os filósofos clássicos, como Aristóteles, a coragem é a virtude que se encontra no justo meio entre a covardia e a temeridade; portanto, ser covarde era recuar diante do próprio potencial, evitar o confronto moral consigo mesmo e fugir (do latim vulgar caudardus, a imagem do animal com o rabo entre as pernas). Nesta Ótica Clássica, dizer “não seja covarde” é um chamado à superação e à elevação moral.


O problema é que, ao longo do tempo, ocorreu uma distorção semântica grave. Criou-se uma segunda ótica: a lógica perversa de que "não abusar do poder é fraqueza". Nesta visão corrompida, não há medo a ser vencido nem recuo, mas sim a imposição da vantagem, da assimetria e do poder. Usa-se o termo “covarde” para constranger alguém a explorar a fraqueza alheia. A covardia deixa de ser um limite humano e passa a ser um instrumento de dominação. Como já alertava Platão na obra Górgias, os tiranos frequentemente confundem o poder de esmagar os outros com a verdadeira força, ignorando que a injustiça é, no fundo, a maior das fraquezas da alma.


O Brasil está minado por essa segunda ótica, transversalmente, do cidadão ao Estado. O resultado é um Estado covarde que não age por medo, mas sim a partir de uma vantagem estrutural insuperável. É neste cenário que se materializa a crítica do economista e filósofo francês Frédéric Bastiat. Em sua obra A Lei, Bastiat demonstra como a legislação — que deveria existir para proteger direitos e garantir a justiça — é sequestrada para se tornar um instrumento de "espoliação legal". Aqueles que detêm o poder abusam da lei para obter vantagens, massacrando quem está abaixo. Quando o governo passa a vender produtos ou serviços competindo com o mercado privado, apoiado em orçamento garantido, poder regulatório absoluto e ausência de risco real, isso não é política pública; é covardia institucionalizada pela caneta. O pequeno empreendedor não concorre; ele é legalmente derrubado.


Contudo, a pior face dessa falência ética é a absoluta falta de coragem do homem moderno para enfrentar essa realidade. É aqui que entra o Carnaval de 2026, que se tornou o símbolo máximo dessa decadência. O carnaval, antes festejado como um momento de valorização cultural, foi sequestrado pela covardia da segunda ótica: tornou-se palanque político, termômetro de aprovação e, acima de tudo, uma ferramenta de anestesia social.


O escritor russo Liev Tolstói diagnosticou profundamente esse comportamento. Em seus ensaios morais, Tolstói argumenta que os homens frequentemente buscam entorpecentes — sejam vícios químicos ou distrações sociais histéricas — com o único propósito de silenciar a própria consciência e não enfrentar as duras exigências da realidade e da moralidade. Festejar euforicamente enquanto o país afunda e a lei é usada para esmagar os justos é a fuga de si mesmo. Até para se divertir, se o indivíduo não se monitorar, já é vencido por essa necessidade covarde de se alienar do desastre ao seu redor.


A coragem para reverter isso exige mais do que indignação; exige virtude. G.K. Chesterton nos lembrava, com sua lucidez ímpar, que "o verdadeiro soldado não luta porque odeia o que está à sua frente, mas porque ama o que está atrás dele". A verdadeira coragem de enfrentar a realidade política e moral de um país exige amar a verdade e a justiça mais do que o conforto do entorpecimento.


A covardia original era recuar diante do próprio medo. A covardia brasileira moderna é dupla: avançar sobre o outro usando o peso da lei e do poder e, em seguida, pular o "carna-covarde" para fingir que os destroços não existem. Isso não é apenas mediocridade semântica. É falência ética. Resta saber se, diante do ano do carna-covarde, teremos a verdadeira coragem de abandonar a ilusão e enfrentar a realidade.


Nota: este artigo contou com a colaboração de Dalmo Moreira Jr.


 

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